Texto do Projeto de Resolução
PROJETO DE RESOLUÇÃO Nº 681/2001
EMENTA:
| CONCEDE A MEDALHA TIRADENTES A HÉLIO GRACIE. |
Autor(es): Deputado JOSÉ AMORIM
A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
RESOLVE:
JUSTIFICATIVA
A história da família Gracie no Brasil, hoje famosa internacionalmente, começou em 1801, quando o jovem escocês George Gracie, aos 25 anos, desembarcou no porto do Rio de Janeiro. Vinha da Escócia, sua terra natal, para construir sua vida no novo continente. Aqui ele se casou e chegou a ocupar o posto de 1º Corretor Juramentado do Brasil.
Seu primogênito, Pedro Gracie, que fez fortuna com o café e tornou-se presidente do Banco da Lavoura, era amigo do Imperador Dom Pedro II, que lhe conferiu a Comenda Rosa. Teve 15 filhos, sendo que vários seguiram a carreira diplomática.
Um século depois da chegada do patriarca George Gracie, seu neto Gastão, filho mais novo de Pedro, voltou de seus estudos na Alemanha e se dedicou ao comércio. Viajando por todo o Brasil, foi para Belém, atraído pelo comércio da borracha, e lá se casou com a cearense Cesarina Pessoa. Tornou-se empresário importante na capital paraense e teve nove filhos entre os quais Carlos e Hélio Gracie.
Quando ajudou um imigrante japonês, Mitsuyo Moeda, a se estabelecer na cidade, em 1917, Gastão não imaginava que a partir desse fato sua família começaria uma trajetória que consagraria o nome Gracie nas artes marciais em todo o mundo. Maeda, conhecido como conde Kooma, era praticante de jiu-jitsu, arte marcial japonesa então conhecida no Brasil. Para demonstrar sua gratidão a Gastão Gracie, ele decidiu transmitir seus conhecimentos jiu-jitsu para o filho mais velho de Gastão, Carlos Gracie.
Com a morte do pai Pedro Gracie, Gastão mudou-se com a esposa e os filhos para o Rio de janeiro, em 1920. Nascido em 1912, Hélio tinha oito anos de idade e Carlos, 11 anos mais velho, despertava a atenção dos novos amigos cariocas por seus conhecimentos de jiu-jitsu, e com o tempo abriu uma academia na rua Marques de Abrantes 106, prédio que existe até hoje.
Nessa época, Hélio Gracie era um menino franzino, com problemas de saúde. Por isso, Carlos recebera ordens do médico da família para que não ensinasse o jiu-jitsu ao irmão. Hélio, muito frágil, com vertigens e desmaios quase diários, estava impedido até mesmo de freqüentar escola e ficava o dia inteiro assistindo às aulas do irmão mais velho.
Até que um dia, como havia um aluno esperando e Carlos não chegava, Hélio (então 14 anos) propôs-se a passar instruções da aula. E fez de tal forma que, quando Carlos chegou, o aluno pediu que, desse dia em diante, as aulas fossem sem nunca ter recebido uma aula sequer.
Com extraordinário talento e persistente, para compensar os seus franzinos 60 quilos, Hélio Gracie aperfeiçoou a técnica a ponto de torná-la praticamente imbatível, dando origem no que hoje é mundialmente conhecida com jiu-jitsu brasileiro.
Aos 16 anos, na sua primeira luta em público, venceu em 30 segundos o então campeão brasileiro de boxe, Antônio Portugal.
Com 18 anos, derrotou o vice-campeão mundial de vale-tudo, Fred Ebert. Venceu em quatro minutos, o campeão de capoeira Caribé, que desafiara através da imprensa. Enfrentou e venceu, sem descanso entre as lutas, doze fulizeiros navais escolhidos entre os mais fortes de toda a corporação. O mais leve pesava 90 quilos. O japonês Massagoishi, campeão de sumô, que tinha o dobro do tamanho de Hélio Gracie, foi por ele derrotado em menos de cinco minutos.
Os japoneses começaram a demonstrar preocupação com a invencibilidade de um brasileiro nessa antiga arte marcial do Japão, e passaram a mandar de lá seus melhores lutadores, para enfrentar Hélio Gracie, que enfrentou vários adversários japoneses e continuava invicto. Para derrubar definitivamente a invencibilidade do brasileiro, vieram do Japão os dois maiores lutadores o campeão mundial, Kimura, e o vice, Katô. Mesmo tendo duas costelas fraturadas em um treino, Hélio Gracie enfrentou Katô em um rinque no gramado do Maracanã e a luta terminou empatada. Na revanche em São Paulo, a vitória de Hélio, em seis minutos, deixou perplexa a colônia japonesa.
A luta contra o campeão mundial Kimura, 10 anos mais novo e 40 quilos mais pesado, foi um marco na vida de Hélio Gracie. Sobre o tablado no Maracanã, Hélio resistiu 18 minutos, arrancando elogios do adversário em plena luta, e só foi vencido quando seu irmão, Carlos, jogou a toalha, temendo fratura séria. No dia seguinte, Kimura foi a casa de Hélio Gracie e o convidou a ir ao Japão. O brasileiro preferiu continuar seu trabalho no Brasil.
A última luta de Hélio Gracie foi a mais longa da história do jiu-jitsu: depois de três horas e 45 minutos sem interrupção, sobressaiu a força física de seu corpulento ex-aluno Waldemar Santana, 20 anos a menos, que venceu o combate de forma dramática. A revanche foi assumida por Carlson Gracie, que venceu Santana de modo arrasador.
Durante uma viagem para Fortaleza, com seu irmão Carlos, no navio Itanajé, um homem desconhecido jogou-se no mar, em uma região infestada de tubarões, perto de Abrolhos, na costa baiana . Um pequeno escaler, com seis tripulantes, desceu para tentar salvar o suicida, mas tinha ordens de voltar caso não conseguissem. Enfrentando grandes ondas, puxavam o homem pelos cabelos sem conseguir trazê-lo para o barco. Então Hélio Gracie resolveu mergulhar. Nadou rápido quando o barquinho já retornava, sob os gritos dos marinheiros apavorados com a presença dos tubarões, colocou o homem a salvo empurrando-o para cima do barco, liderou os marujos que não coseguiam vencer as ondas com seus remos, e ao voltar recebeu medalha de ouro e diploma de Honra ao Mérito, na Rádio Nacional com patrocínio da Standard Oil.
A opinião pública o aclamava como um herói de carne e osso. Durante várias décadas, as vitórias de Hélio Gracie ocuparam as primeiras páginas dos maiores jornais do País.
A partir dos aos 50, a Academia Gracie na Av. Rio Branco passava a ser freqüentada por gente de todas as idades e classes sociais, inclusive por personagens influentes na vida nacional, como empresários, jornalistas, militares e ministros de Estado.
Princípios morais
Por influência de Carlos Gracie, Hélio adotou (e adota até hoje) vida frugal. Sempre fez da técnica e da dignidade do esporte uma bandeira e hoje, na lucidez dos seus 88 anos de idade, se entristece ante o mau uso dessa técnica e a deturpação dos conhecimentos milenares que deram origem às artes marciais.
Protestando contra a imagem de violência de muitos inescrupulosos mercenários das diversas modalidades de luta marcial ele apela para a responsabilidade das academias e das associações na formação moral dos jovens atletas e defende maior rigor para o funcionamento dessa entidades, em nome dos princípios éticos e das elevadas tradições filosóficas do jiu-jitsu.
Seus filhos, sobrinhos e discípulos transmitem as técnicas do jiu-jitsu brasileiro em todo o mundo e participam vitoriosamente das principais competições internacionais. Seu filho Rorion Gracie, vivendo hoje nos Estados Unidos, criou uma academia de jiu-jitsu e Royce Gracie consagrou-se como um dos maiores campeões do mundo nesta modalidade.
Contra a violência
As técnicas transmitidas há sete décadas pelos Gracies transcendem uma simples luta ou prática esportiva, principalmente entre os jovens, que encontram no verdadeiro jiu-jitsu uma atividade sadia, uma técnica de defesa pessoal segura e positiva, em resposta ao mundo difícil e violento em que vivemos. Com sua personalidade marcante, Hélio Gracie passou a simbolizar retidão de caráter, honestidade, coragem e saúde.
Como professor e criador de uma modalidade de jiu-jitsu, Hélio Gracie desenvolveu uma técnica que revolucionou o mundo das artes marciais e que hoje beneficia milhares de pessoas.
Legislação Citada
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Informações Básicas
| Código | 20010500681 | Autor | JOSÉ AMORIM |
| Protocolo | | Mensagem | |
| Regime de Tramitação | Ordinária |
| Entrada | 03/15/2001 | Despacho | 03/15/2001 |
| Publicação | 03/16/2001 | Republicação | |
Comissões a serem distribuidas
01.:Comissão de Normas Internas e Proposições Externas
TRAMITAÇÃO DO PROJETO DE RESOLUÇÃO Nº 681/2001